quinta-feira , 29 outubro 2020

Seca pode comprometer fauna do Rio Paraíba do Sul

Fotos: Manuela Escalla
Fotos: Manuela Escalla

O ano de 2015 começou bem diferente, pois desde junho do ano de 2014 que não chove expressivamente em São Fidélis, e o município enfrenta a maior baixa do Rio Paraíba dos últimos anos. Segundo pescadores da região a situação está fora de controle e provavelmente será difícil a pesca após o defeso, pois sem água em abundância, é quase impossível os peixes subirem o rio, e se conseguirem, provavelmente as larvas não irão sobreviver.

O defeso que começou em outubro e termina em março, proíbe a pesca por conta da quantidade de peixe que sobe o rio Paraíba do Sul para desova (esse fenômeno tem o nome de piracema). No mês de janeiro é uma das épocas mais propícias para a piracema, pois geralmente é chuvoso e o nível do rio é elevado, possibilitando a vinda de diversas espécies de peixe.

Para entender um pouco mais sobre a situação, a nossa equipe fez uma entrevista com o pescador José Carlos, mais conhecido como “Seu Zé”, que é um dos pescadores mais antigos e experientes do município de São Fidélis. Seu Zé nos relata que nunca viu o nível do rio tão baixo.

pescador 1“- Dá uma tristeza imensa no meu coração, pois eu nunca vi o Paraíba tão seco. Esse rio é muito sofrido, vários desastres  já o atingiu; sempre me emociono ao lembrar de quando caiu aquele veneno” (referindo-se ao caso que ocorreu em março de 2003 devido ao rompimento de um reservatório de substâncias químicas da Indústria Cataguases de Papel). 

A sobrevivência do pescador fidelense está comprometida, para termos ideia no mês de outubro costuma subir cerca de trezentos a quatrocentos quilos de Piau Sul para desova, com o rio baixo desse jeito vai ser difícil a sobrevivência  dos alevinos. No local onde é instalada a vara de medição essa semana marcou 40 cm.

“-Tenho um amor incondicional pelo rio Paraíba e meu coração se entristece quando eu vejo essa situação. Recordo-me a época da “Festa da Lagosta de São Fidélis”, a variedade de espécies de peixe em nosso rio era imensa, para se ter  ideia fui o campeão da festa da lagosta por duas vezes, em uma delas, eu pesquei 430 quilos de lagosta, mas sempre respeitando os padrões exigidos pela lei da época!”

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Diminuição da Fauna do rio

Nos anos 80 pescadores fidelenses começaram a ter prejuízos por conta de que a lagosta foi ameaçada de extinção. Além de que barcas de garimpo circulavam pelo rio despejando produtos químicos e por isso varias espécies tiveram que mudar de habitat, ou até mesmo morreram em sua maioria.

Em 1982 uma contaminação que começou em Minas Gerais matou toneladas de peixes, os quais desceram rio abaixo. A contaminação se estendeu até o município de Campos dos Goytacazes. Mais de 18 milhões de litros de água poluída com resíduos de cádmio e chumbo foram despejados no rio. A lama venenosa interrompeu, durante pelo menos 15 dias, o abastecimento de água para a população.

pescador 2Em 2003, após o vazamento de 1,2 bilhão de litros de água com produtos químicos da Indústria Cataguases Papéis, começou também em Minas o desastre ambiental no rio, que deságua no rio Pomba e por sua vez no Paraíba do Sul, provocou a suspensão do abastecimento de água na região. A poluição atingiu até foz do Paraíba interditando praias em São João da Barra. O acidente foi considerado o pior da história do estado.

Em 2007 outro vazamento químico novamente vindo do estado de Minas Gerais ameaçou mananciais do rio. Desta vez foi o rompimento de um dique da mineradora Rio Pomba Cataguases, no município de Miraí, que provocou o vazamento de dois bilhões de litros de lama misturada com bauxita e sulfato de alumínio no Rio Muriaé, um dos afluentes do Paraíba do Sul.

Pescadores de toda a região afirmam que depois desses desastres o Rio Paraíba nunca mais foi o mesmo.

pescador 5Revitalização

Por ser um pescador experiente, José Carlos foi convidado para trabalhar em um centro de pesquisa no município de Campos dos Goytacazes, onde estudam a possibilidade da reprodução da lagosta em cativeiro e repovoar o Rio Paraíba. Por conta das pesquisas terem um custo alto e o sucesso não ter sido como o esperado, o projeto parou de receber incentivos do Governo Federal.

“Seu Zé” está muito preocupado com a fauna do Paraíba, pois no ano passado o rio não apresentou uma cheia expressiva para a reprodução dos peixes, e este ano o rio está de um nível jamais visto e também existem muitos pescadores que não respeitam este período importante que é a piracema, sendo assim continuam pescando, ou seja as poucas possibilidades de reprodução no Rio Paraíba é diminuída por conta de pescadores sem consciência do mau que estão causando.

Fica um alerta: não comprem peixe oriundos do rio nesta época do ano, pois todos eles são ilegais, só é permitida a venda de peixe criado em cativeiro.

“Tenho esperança que o Paraíba voltará a ser fértil, pois confio no Deus que eu sirvo, basta ter Fé e consciência” (Seu Zé ).

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