COP26: Final de mais um espetáculo por Wallace Victor

imagem UN News/Laura Quinones

Chegamos ao final da COP26, talvez um dos encontros mais decisivos da história da humanidade e, mais uma vez, absolutamente nada de concreto para salvar a nossa espécie saiu dali. Pode parecer exagero a importância que dou a esta reunião, mas isso pensará apenas o leitor que ainda não percebeu a gravidade da crise que ameaça nossa sobrevivência na Terra. As mudanças climáticas, diferentemente das mensagens das propagandas feitas para atingir o grande público, não ameaçam apenas a vida dos ursos polares que ficam a milhares de quilômetros da sua casa.

Na verdade, o aumento das temperaturas globais desencadeia uma série de mudanças ecológicas, sociais e econômicas que ainda relatório nenhum do IPCC* teve a coragem de afirmar que possuir total conhecimento. O desaparecimento completo de países como Bangladesh e Tuvalu. Inundação parcial de grandes cidades, como Rio de Janeiro e Nova Iorque. Secas extremas no nordeste, centro-oeste e sudeste brasileiros, norte da África e países inteiros, como Madagascar, que já passa pela primeira seca comprovadamente ligada às mudanças climáticas.

Furacões cada vez mais fortes e frequentes em ilhas como Porto Rico, Cuba e Haiti… Essas são catástrofes que não são apenas mais fáceis de prever, mas que já estão acontecendo por todo o mundo. Não se pode deixar de lado, entretanto, situações que, apesar de incertas sobre sua ocorrência, são tão perigosas que poderiam até mesmo nos levar a tragédias muito piores do que a pandemia de COVID-19. Porque o derretimento do gelo nos polos não leva apenas ao aumento do nível dos mares e aumenta as chances de eventos climáticos extremos. Esse derretimento também descongela vírus e bactérias que estão aprisionados debaixo do gelo há milhares ou milhões de anos, alguns desde a extinção dos dinossauros, que, agora, vão finalmente entrar em contato com nossos organismos, que nunca imaginaram desenvolver defesas contra ameaças parecidas.

Enquanto isso, mais uma COP se encerra e nossa alegria não passa dos primeiros dias, quando os líderes de alguns países mais poluidores do mundo resolveram finalmente admitir sua culpa, apesar de não darem um pingo de pista de comprometimento para contribuir com uma solução. Enquanto isso, alguns, como Bolsonaro e Putin, foram suficientemente sinceros para nem se darem ao esforço de dissimulação diante de outros chefes de estado que defendem às escusas a inação para com o combate ao aquecimento global. Outros, fingindo terem finalmente compreendido o problema, continuam não trazendo medidas concretas para o mínimo divisor comum que é o Green New Deal de Joe Biden ou seguindo suas promessas de aceitar sem filtro as propostas de grande transformação econômica dos 150 cidadãos escolhidos à sorte por Emmanuel Macron.

O resultado prático das conversas foi um documento final ligeiramente mais detalhado do que o já superficial Acordo de Paris, mas muito longe de ser suficiente para o problema que ele pretende enfrentar. Em primeiro lugar, o Pacto de Glasgow, assim como o Acordo de Paris, não traz nenhum tipo de sanção contra os países signatários que não cumprirem com os objetivos estabelecidos. Em segundo lugar, o pacto, como apontado por organizações como Greenpeace e WWF, está muito longe de limitar o aquecimento aos +1,5º em comparação com o período pré-industrial definidos no Acordo de Paris. Isso porque, de versão em versão, o documento que se tornaria o Pacto de Glasgow foi perdendo ambição e detalhamento necessários para o apontamento dos problemas e a definição das soluções necessárias.

Essa vaguidão do documento final é consequência do esforço de cada país para salvar setores de peso econômico e político contra as mudanças que seriam necessárias para a construção de um mundo verdadeiramente sustentável. Como foi o caso das alterações solicitadas pelo Brasil e pela Argentina para tirar a contribuição da indústria da carne do relatório do IPCC. Ou a exigência da Índia, China, Austrália e Noruega para suavizar o tom do documento sobre a urgência necessária no abandono das energias fósseis.

Por fim, o que resta é a esperança que cada país, diferentemente do que aconteceu até aqui, realmente se comprometa com a construção de políticas para o combate às mudanças climáticas, apesar das deficiências do Pacto de Glasgow. A experiência recente não nos encoraja a pensar neste sentido, mas a evidência crescente da gravidade do problema talvez faça acender a razão nos líderes do mundo e da sociedade como um todo.

* Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas, organismo científico sobre o tema ligado à
ONU

Autor: Wallace Victor, graduando em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de Brasília. Tem desenvolvido pesquisas nas áreas de política e meio ambiente. Carioca recém-chegado em São Fidélis.

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